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Cristão deve Celebrar as Festas Judaicas? O Que a Bíblia Diz

Paulo de Tarso, o apóstolo da graça, por uma espécie de portal do tempo, acaba caindo no século 21. Ele chega ao Brasil, curiosamente.
Obviamente, suas roupas se destacam entre as demais. Mas não somente isso, seu olhar curioso procura algo: uma igreja. Claro, não necessariamente um prédio. Seus ouvidos estão atentos para qualquer voz anunciando: “Jesus Cristo!”
Entre sons de carros, crianças gritando e vendedores ambulantes, Paulo escuta ao fundo:
– Jesus é o salvador…
Seu coração se enche de alegria. Ele segue o som estridente e alto saindo de um microfone. De repente, se depara com um prédio grande, belo e destacado na rua.
Sem receio ou dúvida, o apóstolo da graça adentra o local e procura um banco para se sentar. Ele está ansioso e curioso para ouvir o que a igreja do século 21, tem ensinado sobre Jesus. Afinal, são seus irmãos do futuro. Sangue e vida foram derramados por ele e seus companheiros para que uma mensagem de justificação pela fé e nova Aliança se preservassem.
Porém, antes que Paulo pudesse terminar de pensar e começar a ouvir, seu olhar viaja pelo local. Ele vê alguns candelabros e castiçais, e o pastor que está pregando usa um talit. À sua frente, está uma cópia barata – de R$ 9,99 – da arca da aliança. Além disso, o pregador começa a falar da Pessach (Páscoa Judaica) que farão em breve e finalizará o culto com um shofar.
Paulo fica indignado. No entanto, procura se controlar. O pregador, antes de finalizar o culto, olha para as roupas de Paulo e, gostando, diz:
– Shalom para o Sr. Seja bem vindo! Gostaria de dizer algumas palavras?
– Claro, quero comentar uma coisa… – diz Paulo enquanto prepara a bomba.
– Sinta-se à vontade! – responde o pastor.
– Bom, por onde começamos… quantos de vocês já se circuncidaram?
Introdução
Já faz algumas semanas que uma irmã em Cristo me procurou pedindo ajuda e esclarecimento a respeito de um tema controverso: festas e costumes judaicos no meio evangélico. À primeira vista, isso não me surpreendeu. Não é novidade para mim a atração dos cristãos a um estilo de vida que não lhes pertence. No entanto, fiquei abismado quando ela mencionou que igrejas da graça – ou ditas como tal – estavam aderindo a práticas assim.
Fiquei estarrecido, como Paulo, quando disse aos seus irmãos da Galácia: “vocês são tão insensatos!… Começaram pelo Espírito e agora se voltaram para o esforço da carne…?”(Gálatas 3:1–3)
É claro, há total razão e sentido em um cristão conhecer as raízes de sua fé. O povo judeu é parte da nossa história. Paulo diz que deles são as promessas, a aliança etc. (Romanos 9:4–5). No entanto, entre o apreço pela história de Israel e a aceitação de costumes judaicos como algo normativo para a igreja, existe um salto gigante, que os apóstolos não ousaram dar.
Será que toda essa aproximação com os costumes, práticas e regras do povo Judeu se configura um desejo de se aproximar das raízes da nossa fé, ou seria, na melhor das hipóteses, um adultério espiritual em relação a uma Nova Aliança, estabelecida em promessas e realidades superiores e maiores?
O caso das festas Judaicas
O judaísmo está envolvido em inúmeras práticas, ritos, leis e costumes. É claro, os cristãos que decidem se aventurar na conexão com judeus gostam de delimitar sua experiência com eles em apenas aspectos “agradáveis”. A circuncisão ou a aceitação de todas as leis não parece ser algo atraente para eles.
Devido à extensão de práticas, vou me concentrar em apenas uma aqui: as festas judaicas. São elas: Páscoa, Pães Asmos, Primícias, Pentecostes, Trombetas, Dia da Expiação e Tabernáculos.
Uma irmã fez um vídeo sobre como “as festas bíblicas devem ser celebradas à luz das escrituras, e sob a perspectiva da graça.” Sim, não ironicamente, ela conseguiu usar o termo graça e celebração de festas judaicas na mesma frase. Não é que tais festas não teriam alusão ou sombra da graça. A questão é que a graça na Nova Aliança é uma realidade total, e não uma sombra (Colossenses 2:16–17; Hebreus 10:1).
No vídeo, ela começa afirmando: “Dizem que festas bíblicas são só coisa para judeus. Será?” – Nesse momento, eu estava preparado para um super argumento que demonstrasse motivos fortes e biblicamente convincentes para os cristãos, gentios e da Nova Aliança, participarem de festas judaicas. No entanto, a afirmação seguinte é uma evidência de que a anterior estava certa: “Mesmo sabendo que todas as festas que foram cumpridas foram consumadas no Novo Testamento.” – Será que ela percebeu a incoerência?
O ponto argumentativo do vídeo é: as festas judaicas não são apenas para judeus, mas para toda a Igreja. É uma afirmação forte. Você esperaria que os argumentos levantados fossem biblicamente sólidos. No entanto, para nosso riso, a frase seguinte é uma refutação completa de tudo o que virá a seguir.
“Todas as festas que foram cumpridas foram consumadas no Novo Testamento.” Em outras palavras, está consumado, foi finalizado, game over, tetelestai. Todas as festas judaicas, como Paulo diz tão claramente, tinham o propósito de apontar para Cristo e testemunhar sua vinda. Cristo veio? Sim! E agora? Não precisamos mais de sombras, já temos a realidade:
Portanto, não permitam que ninguém os julgue pelo que vocês comem ou bebem, ou com relação a alguma festividade religiosa ou à celebração da Festa da Lua Nova ou dos dias de sábado. Tudo isso é sombra das coisas que estavam por vir; a realidade, porém, encontra‑se em Cristo. (Colossenses 2:16,17)
Todas as festividades judaicas eram sombra de Cristo. Cristo é a realidade. Ele veio e manifestou Sua obra. Acabou a sombra, a realidade já está presente.
Observe que Paulo não está falando de costumes pagãos. Ele menciona exatamente os elementos característicos do calendário religioso de Israel: comida e bebida cerimoniais; dias de festa; luas novas; sábados.
Essa sequência não é aleatória. Ela corresponde ao próprio calendário litúrgico da Antiga Aliança (compare com Nm 28–29; Ez 45:17; 1Cr 23:31; 2Cr 2:4; Os 2:11), abrangendo as celebrações anuais, mensais e semanais de Israel.
A palavra sombra utilizada aqui é skia (σκιά), isto é, uma sombra projetada por uma realidade maior. É o mesmo termo usado em Hebreus 10:1, quando o autor fala que a “lei é apenas uma sombra dos benefícios que virão, não a sua realidade.” Em ambas as passagens, tanto em Colossenses quanto em Hebreus, o foco é mostrar a superioridade de Cristo sob os rudimentos do Antigo Pacto.
Se você achou o início ruim, é porque não viu a metade do vídeo. Na tentativa de argumentar a favor da inserção de festas judaicas no meio cristão, ela diz: “Mesmo sabendo que Jesus nasceu na festa de Tabernáculos, morreu na festa de Páscoa, passou três dias da festa de Pães Asmos embaixo da terra e ressuscitou justamente no dia das Primícias. Será? Enviou o seu espírito exatamente no dia da festa de Pentecostes. E sabe qual a próxima festa pela ordem bíblica? Trombetas! Não, mas é coincidência. É coisa só para judeus.”
Sinceramente, eu esperava mais. Aqui no blog VT, geralmente, estou acostumado a tentar lidar com argumentos mais complexos e que exigem um pouco mais de rigor para responder. Entretanto, esse foi um dos piores que já encontrei. Sabe por que? Porque é uma evidencia contra a própria tese defendida no vídeo. Ela afirma a permanência de festas judaicas para os cristãos, mas logo em seguida diz que elas foram cumpridas em Cristo; depois menciona que as festas judaicas não são somente para Judeus, e usa Jesus como exemplo – um judeu! E, para finalizar, cita todas as festas da Antiga Aliança e seu perfeito cumprimento em Cristo!
E agora? Onde fica meu trabalho de escrita? Como refutar alguém que se auto refutou? Como argumentar contra um vídeo que já traz a refutação em si mesmo? Se os críticos do Evangelho continuarem com esse trabalho, terei que arrumar outra área para escrever com mais prioridade.
Claro, ela pode estar tentando argumentar – e estou tentando melhorar o argumento dela – que o fato de Jesus cumprir e viver essas festas é uma evidencia a favor da participação dos cristãos. É obvio, isso seria um absurdo bíblico sem tamanho. Afinal, em qual passam do NT, Paulo ou os demais apóstolos, chamam gentios para serem inseridos nas praticas judaicas de festa e cerimonias? Não está lá em nenhum lugar! Jesus também se circundou no oitavo dia de seu nascimento e nem por isso vejo cristãos retirando seus prepúcios em cada esquina.
E detalhe: para o povo Hebreu, quem deveria participar das festas? No caso dos homens, somente os que se circundaram – afinal, era o sinal da Aliança e a evidencia do pacto. Nesse caso, um “judeu” incircunciso ou um gentio jamais poderiam participar. A circuncisão era a entrada para a Aliança e a aceitação cerimonial e ritual de um homem no povo Hebreu. Sem isso, não haveria pratica nas demais cerimoniais.
Dessa forma, você, cristão, quer participar das festas judaicas? Precisa se circuncidar. É por isso que Paulo é tão ferrenho em sua afirmação sobre, “se alguém deseja se circuncidar, então, que cumpra toda a Lei!” (Gálatas 5:2–3; cf. Gálatas 5:4). Afinal, não se pode escolher, seletivamente, os preceitos agradáveis e tirar de fora os desagradáveis – como se a lei fosse um mix de salada e pudéssemos tirar a azeitona de fora.
Agora, ela pode contra-argumentar – e aqui estou dando uma grande melhoria na argumentação de quem está do outro lado – que a circuncisão na Nova Aliança é algo espiritual – o retirar do velho homem e o nascimento do novo homem. Está corretíssimo. Mas a que isso nos leva? A circuncisão na Nova Aliança é algo espiritual, mas as festas que a sucedem não são? Na Nova Aliança não há mais “esse templo de Jerusalém ou esse monte” (João 4:21–24), mas no caso das festas é diferente?
Ela mesmo disse que todas as festas são cumpridas e consumadas em Cristo, isto é, tetelestai. A expiação de Cristo também foi tetelestai em relação aos sacrifícios de animais. Isso não significa que acabaram os sacrifícios? Ou ainda podemos sacrificar animais para receber perdão? Se não podemos sacrificar animais para receber perdão, por causa do tetelestai, então porque devemos praticar as cerimônias quando essas também estão debaixo do que foi consumado?
Veja, até que estou sendo brando aqui. Quem me conhece sabe que gosto de apertar esses críticos até tirar-lhes o ar. Afinal, por que eu deveria ser tão brando com quem estabeleceu o que Cristo já derrubou (Efésios 2:14–15; Colossenses 2:14)? Muitos pastores são rígidos quando o assunto é adultério carnal, mas são levianos quando o assunto é adultério espiritual – trocar Cristo pela Lei (Romanos 7:1-4).
O final termina como o começo: degradante. Ela diz: “Você deve comemorar não somente a Páscoa, mas todas as sete festas em memória dele até que ele venha. É porque as festas bíblicas, elas apontam para o Messias, minha filha. Tudo aconteceu em torno dele.”
De onde ela tirou a afirmação de que nós, cristãos, devemos comemorar a Páscoa? Ela está realmente equiparando a Páscoa atual, com seus ovos de chocolate, coelhos estranhos e momentos em família, com a Páscoa judaica, estabelecida no Egito? Espero não passar de ironia.
Afinal, o cristão não deve seguir a Páscoa judaica, mas sim a Ceia estabelecida em Cristo (1 Coríntios 11:23–26; cf. 1 Coríntios 5:7–8). Quer uma festa? Você está com vontade de celebrar algo em Cristo? Celebre a Ceia! A Páscoa era só um prelúdio de algo muito melhor. Hoje temos a Ceia. Temos o corpo e o sangue de Cristo. É claro, a maioria das igrejas encara a Ceia como um evento de muito luto, confissão de pecados e tristeza. Por isso, precisam buscar “festas judaicas”. Na verdade, a Ceia é um momento de comunhão, festa e lembrança do sacrifício de Jesus para desfrutar de seus benefícios.
Por último, ela diz que devemos participar das festas porque são uma “memória dele até que ele venha”. Inacreditável. Quando lemos o Antigo Testamento pelas lentes de Cristo e sua obra, entendemos que as festas foram dadas como um anúncio do Messias que viria. Mas deixe-me contar um segredo para ela: Ele já veio. Sabia disso?
O raciocínio seria esse: as festas judaicas foram dadas para anunciar a vinda e obra de Jesus na cruz. Ele veio e cumpriu sua obra na cruz. E agora que subiu aos céus, devemos continuar guardando as festas em memória dele! Faz total sentido, não é mesmo?
Se esse é o raciocínio, por que Ele veio? Afinal, o antes e o depois não mudaram em nada nesse aspecto. Se isso for verdade, as festas judaicas não foram dadas para anunciar a vinda de Jesus e nem mesmo a sua obra na cruz! Se ele realizou o tetelestai e tudo se consumou, mas ainda precisamos guardá-las, vamos dizer a ele que sua vinda até nossa terra azul foi uma verdadeira perda de tempo.
E pasmem! Os sacrifícios de animais não foram dados a Israel como uma sombra do sacrifício vicário de Cristo? Cristo veio e se sacrificou em nosso lugar. Podemos continuar sacrificando para lembrar de Cristo e estar em memória a ele enquanto o esperamos?
A iniciativa de finalizar esse texto…
Depois que comecei a escrever esse texto, fui movido por uma espécie de apatia na escrita, devido às inúmeras tarefas que eu estava realizando no momento. Assim, deixei o texto parado por algumas semanas.
Entretanto, certo dia, tive um sonho que me balançou para continuar e finalizar.
Sonhei que estava em um local, com várias pessoas reunidas. Vários homens sentados e com toalhas enroladas na cintura. Parecia uma sauna. Em nossa frente, passava uma pessoa, parecendo uma enfermeira, e realizava algo que os homens não desejariam para o pior inimigo: circuncisão.
Eu estava lá no meio, em uma espécie de transe. Na minha mente, no sonho, fazia sentido estar lá.
Quando a tal enfermeira passava e realizava o procedimento em um dos cavalheiros, eu ouvia os gemidos e gritos de dor. Mas eu permaneci, esperando chegar a minha vez.
Quando ela surgiu na minha frente, algo se abriu na minha mente. Foi como se eu tivesse aquela experiência de ficar “consciente” no sonho. Eu logo pensei: “o que diabos eu estou fazendo aqui? Eu nem sou judeu!” e sai pela porta.
Acordei aliviado.
Depois pensei: preciso finalizar aquele texto, antes que alguns irmãos comecem a realizar esse sonho. Espero que eles não tenham realizado o procedimento antes de ler isso…
Texto cirúrgico !!! Indispensável e
Rico em base bíblica irrefutável !
Nova Aliança é outra realidade,
“Eis que estou trazendo a luz coisas
Novas, porventura não o percebeis?” Obg por se permitir manifestar mais de
Deus para nós através de sua vida !!