O Princípio de Transição na Bíblia: Limites e Perigos na Interpretação

Um dos princípios de interpretação da Nova Aliança mais importantes, além de usado por pregadores da graça, é o dos evangelhos como uma transição entre a Antiga e a Nova Aliança. Gostaria de chamá-lo de princípio de transição.

O princípio de transição é inegociável para nós. Tratar as palavras de Jesus no mesmo nível que suas palavras por meio dos apóstolos, após a obra salvífica, é não compreender o ethos central da cruz.

A mudança de alianças não acontece, como alguns pensam, quando Cristo nasce e irrompe na terra através do ventre de Maria. É somente em sua morte e ressurreição — e na efusão do Espírito sob a Igreja — que temos a manifestação real da Nova Aliança.

O apóstolo Paulo escreve que Jesus “nasceu sob a Lei”: “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam debaixo da Lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.” (Gálatas 4:4,5). Deste modo, o nascimento de Jesus não encerra o período da Lei, do Antigo Pacto; na verdade, era necessário que seu nascimento acontecesse nesse mesmo período. Ao nascer sob a Lei, Jesus vem para redimir os que estavam sob ela, e essa remissão acontece por meio do recebimento do Espírito (v.6), algo que acontece apenas após a ressurreição e ascensão de Cristo, no Pentecostes (Atos 2).

Além disso, o autor de Hebreus é enfático em dizer que a base de uma Aliança, ou testamento, é a morte do testador. Nas Escrituras, só há aliança quando há derramamento de sangue (veja Hebreus 9:14-16; 15-21).

Não é por outro motivo que Jesus, na última ceia, declara que o “cálice é a nova aliança no meu sangue, derramado em favor de vocês.” (Lucas 22:20), uma referência clara e direta à sua morte sacrificial.

Ainda em referência a esse fato, vemos o apóstolo Paulo comparando a Antiga Aliança como aquela que foi registrada em tábuas de pedra e a Nova Aliança sendo fundamentada no Espírito que “vivifica” (2 Coríntios 3:6-8). O Espírito aqui, obviamente, se refere à terceira pessoa da Trindade, o Espírito Santo. Ele desce em Pentecostes, em Atos 2, e é anunciado por Jesus como aquele que viria somente quando Jesus fosse aos céus. Na verdade, as palavras de Jesus são ainda mais fortes quanto a isso: Ele diz que, se não for para o Pai, “o Espírito não virá” (João 16:7). Agora, a pergunta que isso nos impõe é: haveria Nova Aliança sem a descida do Espírito? Jesus deixa claro que seria impossível.

Isso se relaciona com Gálatas 4:6, onde Paulo, após mencionar a vida de Jesus sob a Lei para nos tirar da escravidão do velho pacto, associa essa libertação diretamente à recepção do Espírito:

Deus enviou o Espírito de seu Filho aos seus corações, o qual clama: “Aba, Pai”. (Gálatas 4:6)

Isso não é uma declaração plenamente nova, pois vemos sua alusão e referência em passagens-chave do Antigo Testamento a respeito do Novo Pacto. Por exemplo, Ezequiel profetizou sobre a Nova Aliança, onde Deus expressamente diz: “porei o meu Espírito em vocês” (Ezequiel 36:27).

Todos esses e outros pontos demonstram que a Nova Aliança começa após a obra de Cristo, mais especificamente na descida do Espírito sobre a Igreja.

Significa que os Evangelhos, enquanto narrativas do período pré-cruz, não são, em substância e completude, escritos da Nova Aliança. É claro que seria totalmente equivocado afirmar que os Evangelhos são puramente conteúdo do Antigo Pacto, assim como é equivocado colocá-los como já contendo a revelação plena do novo pacto.

Por esse motivo, pregadores da graça identificam, corretamente, os evangelhos como um período de transição entre as alianças.

O pastor Mauricio Fragale observa corretamente que:

Os Evangelhos são um período de transição: nem tudo que está nos Evangelhos é parte da Nova Aliança. Os Evangelhos são um período em que Jesus, que é graça em pessoa, veio cumprir a Lei e demonstrar a graça genuína em ação.1

Desta forma, os eventos que antecedem sua obra salvífica aconteceram ainda no período do Antigo Pacto. Dr. Andrew Farley explica que, nos Evangelhos, “as pessoas ainda operavam segundo as orientações do Antigo, não do Novo”.2

O problema começa quando o princípio de transição é usado de forma descuidada.

Entenda: a existência de um princípio de interpretação não o imuniza contra os abusos de sua utilização. Na verdade, qualquer coisa, por mais pura que seja, pode ser usada de forma errada. Isso não é diferente nesse caso.

Existe uma liberdade maravilhosa dentro da comunidade da Graça. A religiosidade, que outrora nos dominava, utilizava regras arbitrárias para a interpretação da Escritura, sem ler o texto pelas lentes de Cristo. Saímos desse meio e, agora, temos mais espaço para interpretar o texto por um livre exame, analisando seu significado primário ou “oculto” a partir das lentes da obra consumada. No entanto, essa liberdade hermenêutica também pode acarretar, se não for administrada, uma irresponsabilidade com a Bíblia. A interpretação mais livre acaba se tornando uma interpretação errada, que distorce o significado primário ou, pior ainda, que cria uma aplicação inexistente no significado pretendido pelo texto.

É aqui que entra o abuso do princípio de transição dos evangelhos.

Eu estou na comunidade do evangelho da graça há cerca de dez anos e já me deparei com inúmeras extrapolações e conclusões erradas. Uma gama delas parte de uma aplicação errada desse princípio.

Por exemplo, em Marcos 9:24, vemos o pai de um menino possesso declarando a Jesus que o ajudasse com sua incredulidade: “Creio! Ajuda-me a vencer a minha falta de fé”. (Marcos 9:24). Uma interpretação mirabolante que já vi é a de que esse texto reflete uma afirmação da Antiga Aliança. O crente da Nova Aliança não deve ou não precisa orar ao Senhor, pedindo ajuda em relação à fé. Já que o cristão é completo em Cristo (Efésios 1:3; Colossenses 2:9-10; 1 Pedro 1:3), ele já tem a fé, e orar pedindo fé seria um erro de ignorância em relação aos benefícios do novo pacto.

É curioso que esses irmãos não concordam com o pedido de fé, mas não criticam Paulo ou aqueles que oram pedindo conhecimento e revelação (Efésios 1:17–18). Se já temos tudo em Cristo, por que Paulo orou para ter mais conhecimento?

O ponto aqui é jogar o texto de Marcos 9:24 para escanteio. O simples argumento de que se trata de um texto em um período de transição revela uma interpretação preguiçosa e abre um precedente perigoso: qual é o limite dessa forma de aplicação? Posso fazer o mesmo com qualquer texto dos Evangelhos ou existe algum limite? Se existe, quem o determina? E, se não existe?

As extrapolações não param por aqui. Já vi um pastor afirmar que não precisamos orar por enfermos ou impor as mãos, orando de forma externa por alguém doente. Ele se adianta e cita as passagens de Jesus curando e se posiciona, explicando que esses textos tratam de “Antes da cruz”, escritos em um período de transição. Agora, segundo ele, não precisamos orar pelas pessoas ou declarar a cura, mas aguardar a obra consumada se manifestar. Eu acredito que ele deve ter esquecido de mencionar para Paulo e os demais discípulos sobre isso (Atos 9:17; 28:8); eles não parecem ter visto uma contradição entre impor as mãos sobre enfermos e crer na obra consumada.

Recentemente, publiquei meu livro novo: Sente-se aos pés de Jesus: livres da ansiedade e da preocupação. Acredite se quiser, mas um pastor, que conhece a graça, procurou me corrigir, dizendo que o título não poderia ser esse, pois não estamos mais, como Maria, sentados aos pés de Jesus, mas ao lado dele, nas regiões celestiais (Efésios 2:4-6). Aqui, novamente, ele usou o princípio de transição para concluir que somente nos evangelhos as pessoas ficavam aos pés de Jesus. No pós-cruz, a posição mudou.

Alguns grupos mais extremos conduzem essa interpretação até práticas essenciais e normativas da vida cristã. Por exemplo, alguns negam que os cristãos são chamados a participar da Ceia ou que precisam ser batizados. Segundo eles, batismo e ceia são atividades da Antiga Aliança. Tais práticas permaneceram durante algum tempo entre os apóstolos e discípulos, mas foram sendo abandonadas por aqueles que chegaram a um conhecimento mais “maduro” do Evangelho da graça.

Agora, o que acontece se, porventura, nós demonstrarmos que, no livro de Atos dos Apóstolos, os discípulos oraram externamente por doentes, se assentaram aos pés de outros ou até mesmo batizaram e participaram da ceia?

É aqui que entra o precedente perigoso que mencionei. Ao invés de deixar as Escrituras se organizarem em torno da obra consumada, esses irmãos acabam pervertendo o significado comum de cada uma dessas passagens, aplicando mais um progresso no uso errado desse princípio. Agora, o princípio não é mais de transição, mas de exclusão. Ele passa a ser usado para excluir toda e qualquer passagem que não se alinha ao corpus de doutrina defendido.

Na tentativa de manter o princípio de exclusão, alguns defendem que ele alcança até mesmo passagens de Atos dos Apóstolos. Não é que Atos seja o registro de uma transição da Antiga para a Nova Aliança, mas um registro de transição da revelação na Igreja. Segundo eles, os primeiros cristãos, principalmente Pedro, Tiago e João, não tinham o pleno conhecimento da graça — o que, a princípio, parece ser verdadeiro —; logo, seus ensinamentos e práticas sobre Ceia, Batismo, cura, fé e outros estavam repletos de misturas entre as Alianças. Já que o apóstolo da Graça — apóstolo Paulo — ainda não havia chegado ou recebido a revelação do Evangelho da Graça, os apóstolos que estavam à frente da igreja acabaram continuando, por um tempo, práticas que estavam associadas ao Antigo Pacto.

Veja, há uma evolução no princípio: Atos é incorporado aos Evangelhos como fonte duvidosa de conhecimento verdadeiro a respeito das realidades da graça. O que deveria ser um princípio de auxílio se torna um princípio de dúvida. É claro, existe um descobrimento por parte dos primeiros apóstolos em relação a verdades da justificação pela fé e ao alcance dos gentios. No entanto, essa progressão é devidamente exposta e esclarecida (veja Atos 10 — Pedro e Cornélio; Atos 15 — a discussão sobre circuncisão e justificação pela fé; Gálatas 2 — Paulo corrigindo Pedro).

É estranho pensar que Lucas narraria todos os fatos de Atos sem deixar qualquer pista de que a mensagem ou prática realizada era imprópria para um cristão na Nova Aliança. Afinal, o autor que esteve com o próprio Paulo não poderia ser claro em relação aos momentos em que a Igreja manteve um pensamento errado? O próprio Paulo relata uma situação com Pedro que divergia de um comportamento da Nova Aliança (Gálatas 2:11–14). Lucas, no entanto, não faz isso em nenhum momento.

A conclusão é que todos os ensinos que não sejam do próprio Paulo devem ser colocados em xeque. Será que se tratam da Nova Aliança? Ou seriam ainda resquícios da Antiga Aliança assombrando a Igreja?

Agora, e se, porventura — novamente— for demonstrado que o próprio Paulo parecia defender ou praticar esses princípios e ensinamentos “da Antiga Aliança”? É aqui que chegamos ao assombroso final.

Nem todos se aventuram nessa parte, mas muitos são induzidos até ela.

O escritor do blog VT, Daniel Moreira Filho, comenta um caso específico de uma pessoa que leu Filipenses 4:19, onde diz: “Meu Deus, segundo as suas riquezas, suprirá todas as vossas necessidades em glória, por Cristo Jesus.” Segundo ela, “Paulo entendeu errado”, “ele não tinha uma compreensão da graça”, pois “Deus já supriu tudo o que precisamos” (citando Efésios 1:3). Daniel também cita um caso semelhante a respeito do homem que dormia com a sua madrasta em 1 Coríntios 5. Nessa passagem, Paulo entrega o homem a Satanás (assim como no caso de Himeneu em 2 Timóteo 1:20), por ter relações com sua madrasta. Segundo essa irmã e outras pessoas, Paulo não estava em um momento de Graça, mas de Lei. Sua indignação ou atitude revela um resquício de Lei no apóstolo da Graça.

O que devemos fazer, então? Algumas sugestões peculiares são propostas: 1) Paulo teve momentos de queda da graça, onde agiu de forma errada ou teve ideias distorcidas, oriundas do Antigo Pacto. Isso me faz pensar: como saber os momentos em que o apóstolo estava agindo em graça e os momentos em que não estava? Afinal, quem decide isso? Como conciliar isso com o fato de Paulo ser tão rigoroso em relação a qualquer deturpação ou mistura no Evangelho? Eu não sei como poderíamos levar a sério Paulo e sua mensagem tão enfática de “somente a graça” se, por acaso, o apóstolo tivesse lapsos de entendimento e prática. 2) Uma segunda opção, tão ruim quanto, é a tentativa de criar uma ordem cronológica na vida do apóstolo, destacando o momento em que ele teve uma super revelação da graça e os momentos anteriores, onde seus escritos estavam baseados em um ensinamento misturado. Essa é a conclusão que coloca Paulo contra Paulo, em uma espécie de progressão paulina em relação ao Evangelho.

Essa leitura transforma o apóstolo da graça em um teólogo em constante correção, cuja autoridade depende da fase em que se encontra. Isso mina toda a segurança encontrada no Evangelho. Afinal, e se encontrarmos um texto do “Paulo tardio” que demonstre o apóstolo entregando um homem a satanás, como no caso de 2 Timóteo 1:20, considerada a última carta do apóstolo? E se encontrarmos, no Paulo tardio, outros aspectos de ensino e atitude que achemos inadequados para um apóstolo da Graça?

No final, a certeza da revelação deixa de estar no que o texto demonstra e passa a estar nas mãos do intérprete, que pode fazer o que bem entender com ela.

O princípio de transição é bíblico e faz parte da correta interpretação das Escrituras. No entanto, pode ser deturpado quando aplicado sem delimitações. Pode começar com algo ligeiramente suave, como palavras sobre fé proferidas por Jesus; se tornar mais forte quando passagens de Atos se tornam o problema; evoluir para uma ruptura profunda, quando Paulo é colocado como a única fonte confiável de ensino; ou, pior ainda, acabar sendo uma fonte de dúvidas e incerteza, criando uma confusão e conflito dentro dos próprios escritos paulinos. A partir daqui, o buraco é muito perigoso, e doutrinas essenciais do Evangelho ou, quiçá, o próprio Evangelho podem ser excluídas por um princípio que, no início, visava exaltá-lo.

  1. Mauricio Fragale, Sua Nova Identidade, p. 120 ↩︎
  2. Andrew Farley, o Evangelho Nu, p. 82 ↩︎
Eliezer Oliveira
Eliezer Oliveira

Tenho 27 anos e sou diretor do Blog Vida Trocada, autor dos livros De Adão à Eternidade: a História da gloriosa salvação; Nada Além do Sangue; Hiper Graça: O Que Realmente Defendemos e Sente-se aos pés de Jesus. Também sou autor e coautor de vários livros digitais. Sou professor do curso Universidade da Graça, Vida na Graça e Teologia com Graça, e também atuo como Escritor Fantasma para alguns ministérios. Bacharel em Teologia (ESTÁCIO), casado com uma escritora maravilhosa, amante da leitura e de um bom café.

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