Pregação Antropocêntrica? Refutando o Uso Indevido de um termo

O termo “antropocêntrica” ou “antropocentrismo” tem se tornado um novo rotulo (palavrão) usado por cristãos para difamar uma pregação. Há situações que esse rótulo se encaixa, mas em outras devemos questionar sua aplicação. Hoje em dia, qualquer pregação que trata da benevolência de Deus em nos abençoar, cuidar, amar e fazer tudo o que um Pai deseja aos seus filhos, é visto como “antropocêntrica” por cristãos que, supostamente, querem defender a centralidade do Senhor.

A falha começa na definição do termo antropocêntrico e em seu abuso como forma de argumentação. Vamos definir esse termo da forma devida, e compreender se uma mensagem ou pregação que fala sobre a bondade manifesta de Deus – em curas, milagres e prosperidade – pode ser classificada como “antropocêntrica”.

Definindo o antropocentrismo

Primeiro, o que é o antropocentrismo? Esse é um termo que surge na Idade média para se referir a crença humanista de que o homem possui um papel superior a toda a criação — incluindo os animais e a natureza. O antropocentrismo também pode ser definido como “um conjunto de ideias onde o homem representa a figura central, nos campos da cultura, ciência, sociedade e é a principal referência para o entendimento do mundo.”

“O ser humano, para o antropocentrismo, é racional, crítico, questionador da sua própria realidade e responsável, portanto pelos seus pensamentos e ações.”1

Noutras palavras, o antropocentrismo defende que o homem é o centro de sua identidade, de seu propósito e de sua existência.

A Igreja pegou o termo secular e aplicou em suas críticas teológicas e locais. Eles definiram que uma pregação ou doutrina “antropocêntrica” é aquela que coloca o homem no centro. Os cristãos pegaram emprestado tal termo e preencheram com um conteúdo próprio. Segundo eles, o antropocentrismo é a pregação e o ensino que: 1) Coloca Deus por nós, desejando nos abençoar, nos ajudar, auxiliar, proteger, curar, etc.; 2) Somos valiosos e preciosos para Deus, por meio de sua obra; 3) Deus amoroso e compassivo que cuida gentilmente e detalhadamente de suas criaturas.

Nesse caso, qualquer pregação que envolva definições “muito amorosas” e acolhedoras de Deus, trazendo o foco para a cura de nossas emoções, o cuidado e o anelo de Deus pelo homem são classificadas como “antropocêntricas”.

Pregação antropocêntrica? Os problemas

Existem sérios problemas com essas definições:

  1. Redefinição do termo “antropocentrismo” para invalidar qualquer pregação a gosto do crítico.

A pregação antropocêntrica “cristão” – se é que posso chamar assim – é melhor entendido como o humanismo (definir o homem como o centro de sua própria realização e identidade). No livro Nada Além do Sangue, defino humanismo como “o homem é considerado a causa de seus próprios efeitos, o meio para seus próprios fins e o mestre de seu próprio destino. Ele é o autor de sua própria identidade e significado de vida, o criador de sua própria salvação e o gerador de sua plenitude.”2

Neste caso, não faz sentido dizer que pregações que colocam nossa suficiência, identidade e plenitude em Deus são antropocêntricas. Na verdade, o inverso seria verdade.

O antropocentrismo não se refere aos resultados de benefícios espirituais ou materiais como (santificação, justificação, proteção divina, cura física e emocional), mas aos MEIOS de tais resultados (o homem). Em outras palavras, não é antropocêntrico afirmar que Deus é por nós e para nós por meio de Cristo, e que nesse Cristo consiste a nossa suficiência, plenitude e identidade, que por meio dEle somos agraciados, aceitos, protegidos e queridos. O humanismo se trata de ver a si mesmo como fonte dessas realidades.

  1. Não sabe quem é o Deus revelado em Cristo

A crítica “antropocêntrica” desconhece o Deus revelado em Cristo. Esse Deus é o Deus para o homem e pelo homem. Isso não é humanista, pois o próprio ser de Deus é assim. Deus não é autocentrado, não é egoísta, mas é focado no outro (Veja Marcos 10:4; João 3:16; 13:3-5; Filipenses 2:5-7).

O próprio ser interno de Deus pressupõe tal essência divina. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo. Deus é uma Trindade, onde cada pessoa se entrega e se doa pela outra (Veja João 5:19-20; 17:21-24). O Pai não é autocentrado, mas centrado no outro, e isso diz respeito a toda Trindade. Do mesmo modo, as três pessoas convergem para se doar externamente.

Se Deus é doação e entrega em si mesmo, Ele é doação e entrega fora de si mesmo, para nós. Por isso, João diz:

“Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” (João 3:16)

Dentro de si, Deus é doação e amor. Logo, fora de si (para nós), Deus é doação e amor. Visto que Deus para nós não é diferente do que Deus é em si mesmo, devemos entender que Deus deseja e quer ser por nós e para nós. Da mesma forma, ele nos chama para fazer o mesmo, servindo aos nossos irmãos (Veja João 13:14-15; Efésios 5:1-2).

  1. Deus ama que tiremos dEle

E aconteceu que, indo eles de caminho, entrou Jesus numa aldeia; e certa mulher, por nome Marta, o recebeu em sua casa; E tinha está uma irmã chamada Maria, a qual, assentando-se também aos pés de Jesus, ouvia a sua palavra. Marta, porém, andava distraída em muitos serviços; e, aproximando-se, disse: Senhor, não se te dá de que minha irmã me deixe servir só? Dize-lhe que me ajude. E respondendo Jesus, disse-lhe: Marta, Marta, estás ansiosa e afadigada com muitas coisas, mas uma só é necessária; E Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada. (Lucas 10:38-42)

Quando Jesus entrou na casa de Marta, ela ficou preocupada em arrumar a casa para receber Jesus. Ela queria fazer coisas para Jesus. Já a sua irmã Maria, queria receber de Jesus. O mestre disse que Maria fez a escolha certa.

O antropocentrismo se refere a receber algo de Deus como Maria aos pés de Jesus ou trabalhar como Marta? Se trata de tentar sempre fazer algo para Deus ou de receber algo de Deus?

Como o pastor Joseph Prince coloca: “Qual das duas mulheres honrou Jesus como Deus? Aquela que queria fazer algo para Ele ou aquela que queria receber algo dEle?”

Às vezes pensamos que “tirar” algo de Jesus é ruim. Não queremos ir até ele para necessidades diárias e constantes. Mal sabemos que Ele providenciou tudo em sua Obra e que Ele deseja cuidar de nós em cada situação. Esse é o ser de Deus, revelado em Cristo, um ser que transborda bondade, benignidade e suprimento para suas criaturas. Quando tiramos algo de Cristo, seu desejo amoroso é realizado.

O teólogo Michael Reeves afirma que “Deus transborda de nutrição cordial e vivificante, bem mais disposto a dar do que estamos a receber”.3 O ser Deus é completo, um ser que transborda de amor e plenitude. Seu desejo é derramar desta plenitude sobre suas criaturas, seus filhos. Seu desejo é sempre doar, é sempre alcançar, é sempre proteger, pois Ele é completo, cheio, total, autossuficiente, e centrado no outro.

Conclusão

Quando devidamente entendido, o termo “antropocêntrico” se refere a qualquer mensagem ou pregação que coloca o homem como a fonte das bênçãos que necessita, ou do sentido de sua existência. Classificar as pregações que falam da cura, prosperidade e demais bençãos de Deus, como ministrações antropocêntricas é um abuso do termo. Um uso indevido que ataca diretamente o caráter benevolente e compassivo de Deus.

Referências:

  1. https://www.todamateria.com.br/antropocentrismo/ ↩︎
  2. Eliezer Oliveira, Nada Além do Sangue (Editora Biografary, 2ed. 2025), pág. 23. ↩︎
  3. Deleitando-se na Trindade: Uma Introdução a fé Cristã, pág. 39 ↩︎
Eliezer Oliveira
Eliezer Oliveira

Tenho 27 anos e sou diretor do Blog Vida Trocada, autor dos livros De Adão à Eternidade: a História da gloriosa salvação; Nada Além do Sangue; Hiper Graça: O Que Realmente Defendemos e Sente-se aos pés de Jesus. Também sou autor e coautor de vários livros digitais. Sou professor do curso Universidade da Graça, Vida na Graça e Teologia com Graça, e também atuo como Escritor Fantasma para alguns ministérios. Bacharel em Teologia (ESTÁCIO), casado com uma escritora maravilhosa, amante da leitura e de um bom café.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *